Meus prezados:
A memória dá parabéns
"A Varig foi criada para servir. Ela tomará parte em todos os progressos na estrada ao grande futuro do país, nas recompensas alcançadas, levando com dignidade o pavilhão nacional para muito além de nossas fronteiras. Tenho inteira convicção de que a Varig, graças ao alto espírito de responsabilidade de seu elemento humano, saberá caminhar sempre pela trilha do progresso". (Otto Ernst Meyer)
TATIANA CRUZ
Neste domingo, faz 79 anos que essas palavras se tornaram uma espécie de mantra para qualquer um que trabalhasse, voasse ou sonhasse em cruzar fronteiras a bordo de um avião da Varig. Propagado pelo fundador, Otto Ernst Meyer, o lema é também causa de desconforto entre a legião de funcionários que o perseguiu com empenho por mais de sete décadas. Com credores na porta, uma dívida de mais de R$ 8 bilhões e a ameaça de parar de voar a qualquer momento, a Varig e o progresso idealizado pelo patrão deixam melindrado um velho discípulo, cuja própria vida - com a mulher e os três filhos - foi forjada nos bastidores e nos hangares da companhia. Neste aniversário de 79 anos que quase não chegou, e na véspera da assembléia que votará o plano de salvamento da companhia (leia na página ao lado), o gaúcho de Montenegro Götz Georg Herzfeldt, 86 anos, pede licença para voltar ao passado. Para o piloto vivo mais antigo da Varig, é na memória que a trilha ambicionada por Meyer parece não ter fim.
Faz mais de mês que a vista do canal do Leblon virou mera paisagem no apartamento do comandante aposentado da Varig Götz Georg Herzfeldt, no Rio. Sentado numa confortável poltrona, TV ligada no noticiário, ele finge dormir. Finge, entrega a mulher, Gisela (pronuncia-se Guísela, como manda o alemão).
- Desde que a Varig ficou assim, ele anda deprimido. Finge que dorme, mas está escutando as notícias. A gente não quer vê-lo triste - diz, por telefone, a mulher do gaúcho de 86 anos, o piloto vivo mais antigo da companhia, com mais de meio século dedicado à empresa.
O título, que já foi motivo de homenagens, hoje soa um tanto nostálgico para quem entrou na companhia em 1937, 10 anos depois de sua fundação, acompanhou seu vôo rumo ao Exterior e atualmente observa calado uma rota rumo à salvação. Calado porque foi o silêncio que impôs na rotina de casa em relação à crise na empresa. Se a mulher puxa conversa, resmunga monossilábico. Se é o filho Walter, também ex-funcionário, desconversa. Mas do outro lado da linha, ele pede a palavra à reportagem de Zero Hora:
- Quero falar. Não dá para entender como a Varig foi parar nisso. É uma lástima, porque o governo não reconhece que errou em congelar as tarifas - diz, gaguejando, devido a seqüelas de um exame de laparoscopia feito há seis anos.
O piloto mais antigo da companhia afirma nunca ter imaginado ver a empresa do amigo Ruben Berta chegar aonde chegou. Fala isso lembrando do Super Constellation, responsável pelo primeiro vôo da empresa a Nova York. Conta isso recordando o amigo entusiasmado com a idéia de servir churrasco aos passageiros a bordo - e de todos os argumentos que ele, Götz, usou para demovê-lo da empreitada.
- Ele queria entusiasmar os gaúchos, mas a aeronave era pressurizada.
Ao contrário do filho, que deixou a empresa por divergências políticas, o comandante Götz nem ousa falar em administração equivocada.
- É até um desrepeito falar em desperdícios. Pode ter havido excessos, mas isso ocorre em qualquer lugar - conta o piloto, que foi ainda diretor de operações e de manutenção.
De um tempo em que era preciso "sentir o chão com os pés" (os A-50, na foto abaixo, não tinham rodas traseiras nem freio), Götz reconhece que muita coisa mudou.
- Antes pilotos eram pé e mão. Hoje são mais cabeça. Na minha época, aviação era entrar num avião e voar. Hoje, é fazer negócios - diz.
fonte: jornal "Zero Hora" 7 mai 2006
Um abraço e até mais...
Cláudio Severino da Silva
jambock@brturbo.com.br
VARIG: na opinião de seu mais antigo piloto vivo
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