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Céu vazio: Varig voa em sua pior crise
Enquanto a empresa aérea gaúcha ainda procura saídas para se recuperar, especialistas dizem que solução pode não chegar a tempo
Dezembro de 2001: Transbrasil comunica a suspensão dos vôos da companhia. Janeiro de 2005: Vasp tem as linhas cassadas pelo Departamento de Aviação Civil (DAC). Abril de 2006: Varig cancela vôos, começa a pagar combustível antecipado a cada decolagem, apela para um suposto acordo com o governo, embora em uma reunião comandada pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, tenha-se aventado que a falência seria a melhor solução, inclusive com um plano elaborado para reacomodar passageiros em concorrentes.
Para especialistas consultados por Zero Hora, a história que abateu Transbrasil e Vasp pode estar prestes a se repetir com a aérea gaúcha.
- A situação é muito parecida com a de dezembro de 2001 e a de janeiro de 2005. Podemos estar a dois, três dias do fim da Varig - estima Paulo Sampaio, economista e consultor aeronáutico.
O que agrava a situação é, segundo consultores, a negativa do governo de dar um perdão temporário às dívidas da empresa com órgãos públicos, que representam mais de 60% do total de um passivo de R$ 8,4 bilhões. Uma das credoras, a BR Distribuidora, por exemplo, só tem abastecido as aeronaves da companhia mediante pagamento anterior a cada vôo. E a Infraero, outro órgão para o qual a Varig deve cerca de R$ 126 milhões, anunciou na última semana a disposição de cobrar diariamente as tarifas aeroportuárias da empresa, o que torna quase inviável sua sobrevivência.
Destino da empresa depende do governo, diz consultor.
A negativa do governo se deve em parte à pressão do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União (TCU). O tribunal pode processar administradores públicos se entender que estejam privilegiando uma companhia privada em detrimento do interesse da empresa pública.
- Infelizmente a Varig está no fim. Pode ser em dois, três dias, como pode ser em dois meses. Depende de como o governo vai lidar com esses pagamentos que precisam ser feitos - afirma Marcelo Ribeiro, consultor de aviação.
Tanto Ribeiro quanto Sampaio não enxergam nenhuma possibilidade de salvação da companhia que não passe pelo governo. Mas, mesmo em se tratando de um ano eleitoral - ocasião perfeita para o presidente Lula tirar da cartola uma ação populista em prol da empresa -, os consultores são pessimistas.
- Acho improvável agradar a todas as famílias que dependem da Varig e desagradar ao mercado, porque o Mantega (ministro da Fazenda, Guido Mantega) não pode dar mostras de ser frouxo fiscalmente - analisa Ribeiro.
Até mesmo a figura de um investidor é descartada pelos especialistas, que vêem com maus olhos a aquisição da empresa pelo grupo Volo Participações, reconhecido por comprar grupos endividados, saná-los e vendê-los a terceiros sem, dizem os consultores, pagar credores.
- Ninguém vai querer investir numa empresa com uma dívida impagável - avalia Sampaio.
O consultor não esconde a torcida que fez no passado para que a Lufthansa investisse na Varig, mas lembra que, para a gigante alemã, o mercado brasileiro representaria apenas 3% de seus interesses. A TAP, outra companhia que mostrou vontade de investir na empresa gaúcha, seria hoje carta fora do baralho, diz Sampaio. Ele lembra que o atual presidente da TAP e ex-presidente da Varig Fernando Pinto, passa por um grande constrangimento em Portugal. Seja por não ter conseguido chegar ao lucro prometido no balanço de 2005 da companhia - que fechou no vermelho -, seja por ter adquirido a VEM, cuja principal cliente, a Varig, não honra pagamentos.
Marcio Marsilac, coordenador do movimento Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), também vê um desfecho iminente.
- O plano de recuperação judicial não foi executado. A diretoria da Varig não conseguiu romper com a velha estrutura de governança. É uma situação-limite: ou se implanta esse plano emergencial, ou a Varig está quebrada - observa sobre o plano da consultoria Alvarez & Marsal, contratada em 17 de março para conduzir a reestruturação da Varig.
Programa permitiria fôlego de até US$ 350 milhões
Segundo o estudo, que constatou um grave problema no fluxo de caixa da companhia, a empresa teria de cortar 2,9 mil funcionários, reduzir salários dos empregados em até 30% e suspender os pagamentos de credores por prazos de até três meses, incluindo o fundo de pensão Aerus, a BR Distribuidora, a Infraero e as empresas de leasing. Caso implantado, a Varig ganharia um fôlego no caixa estimado entre US$ 200 milhões e US$ 350 milhões.
Nesta semana, a Varig vai tentar mais uma cartada. Desta vez, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ao qual apresentará um projeto de recuperação da empresa que pode conter, segundo fontes do mercado, um pedido de empréstimo para financiar algum investidor interessado no negócio.
Aviões parados?
Se os principais credores, especialmente Infraero (taxas aeroportuárias) e BR Distribuidora (combustível), não aceitarem a suspensão temporária das dívidas da empresa, os aviões não devem decolar.
Isso pode ocorrer a qualquer momento. Das 71 aeronaves, apenas 54 estariam voando. A empresa opera no limite, daí os inúmeros atrasos e cancelamentos.
Probabilidade: alta
Execução de medidas?
Para garantir a sobrevivência da companhia nos próximos meses, também são necessários uma redução no quadro de funcionários e uma injeção de capital, seja por meio de um investidor, seja por meio de empréstimo do governo via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Na sexta-feira, o presidente da companhia, Marcelo Bottini, confirmou que a empresa pediu aos seus credores públicos e privados uma "linha de crédito" de US$ 200 milhões para atravessar os próximos meses.
As demissões estão previstas desde o início do ano, mas a empresa não tomou qualquer atitude até agora. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, descartou ajuda doTesouro.
Probabilidade: baixa
Credores podem ajudar?
Se colaborarem, apenas garantem a empresa no ar por alguns meses. O plano de recuperação aprovado prevê a criação de Fundos de Investimento e Participação (FIPs) para os credores, os chamados FIPs Crédito. Os credores convertem suas dívidas em títulos e podem vendê-los a investidores interessados. Dentro do FIP Crédito, os credores tornam-se aptos a participar do FIP Controle, cuja gestão ficará sob responsabilidade do Banco Brascan. Ou seja, mesmo com carência concedida pelos credores, é necessário ter interessados em capitalizar a empresa e investidores em comprar títulos da dívida.
Os credores estatais não se mostram dispostos a colaborar e o modelo de recuperação judicial aprovado, com a estruturação dos FIPs, começou a andar apenas nas últimas semanas.
Probabilidade: média
E se investidores não ajudarem?
No momento, a única proposta concreta apresentada foi da VarigLog, de US$ 350 milhões pela empresa. A VarigLog foi adquirida da Varig por Volo Participações, que tem como acionista o fundo norte-americano MatlinPatterson. Credores já se manifestaram contra a proposta, pois acreditam que nem todas as dívidas seriam honradas. Especulações dão conta de que outro fundo norte-americano especializado em investir em empresas problemáticas estaria interessado e mais uma vez voltaram boatos de que a Ocean Air teria proposto investir US$ 80 milhões na aérea - próprios ou do BNDES. A cada hora que passa, crescem as chances de o investidor chegar tarde demais.
Desde o início do plano de recuperação judicial, quando os investidores aparecem, algum credor não aceita e as demais propostas especuladas não se confirmam.
Probabilidade: média
O setor enfrentará problemas?
O governo, por meio da Agência Nacional de Aviação Civil, vende a idéia de que nos vôos domésticos a paralisação da Varig poderia ser contornada com certa tranqüilidade. Isso porque, conforme dados de março do Departamento de Aviação Civil (DAC), TAM e Gol juntas concentram 74% do mercado - a Varig tem apenas 19%. As concorrentes poderiam assumir os passageiros com bilhete na mão, com endosso de passagens. Nos vôos internacionais a questão é mais complexa. Para a Europa e os Estados Unidos, a idéia é que os passageiros fossem assumidos pelas companhias da Star Alliance, mas isso dependeria de acordos com cada empresa. A questão é intricada porque, enquanto não houvesse um acerto, clientes poderiam ficar detidos com a passagem na mão no Exterior. O Itamaraty prepara um plano para socorrer passageiros lá fora.
Apesar de haver um plano de contingenciamento, não há garantias para os vôos internacionais. No ambiente doméstico, com menos empresas, a concentração pode arrefecer as promoções.
Probabilidade: alta
Passageiros terão transtorno?
Em tese, os que não conseguirem endosso de passagens em outras companhias se tornarão credores da massa falida, juntamente com fornecedores e trabalhadores. Pode ocorrer também o ingresso de uma ação civil pública contra a União, que é o poder concedente do setor e, por isso, teria a responsabilidade pela continuidade do serviço, segundo análise da Associação Nacional em Defesa dos Direitos dos Passageiros do Transporte Aéreo (Andep). No caso do programa de milhagem (Smiles), não há uma unanimidade do que vai acontecer. Órgãos de defesa do consumidor argumentam que é direito dos clientes usufruir da bonificação recebida com o programa, mesmo que em outra companhia. A Andep prevê, no entanto, que isso não será tão simples de ocorrer, pois não há jurisprudência sobre o assunto e as companhias defendem que se trata de um prêmio, não um serviço vendido.
Não estão descartados problemas nas transferências de vôos domésticos. Muitos passageiros poderão ter de mudar horários e datas de vôos, a exemplo do que ocorreu com a Vasp.
Probabilidade: de média a alta
fonte: jornal "Zero Hora" 9 abr 2006
Um abraço e até mais...
Cláudio Severino da Silva
jambock@brturbo.com.br
A VARIG vôa sua pior crise
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- Maurício
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Crise Varig
"Carga pesada
A conta é de um dos principais credores.
A Varig, a nossa Varig, tem um prejuízo operacional diário de cerca de US$ 1 milhão."
Fonte: Ancelmo Gois - O GLOBO
Maurício.
A conta é de um dos principais credores.
A Varig, a nossa Varig, tem um prejuízo operacional diário de cerca de US$ 1 milhão."
Fonte: Ancelmo Gois - O GLOBO
Maurício.