Meus prezados:
O astronauta brasileiro
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL/ Escritor, professor da PUCRS
Em 1956, a SEC promoveu, na rede escolar pública, um concurso de redações. Comemoravam-se 50 anos do vôo de Santos Dumont no campo de La Bagatelle, na capital francesa, com o seu frágil e audacioso 14 Bis. Os escolares prepararam-se, pesquisando o feito do grande inventor, e era motivo de orgulho para todos que fosse um brasileiro a realizar a façanha. Os americanos vieram a dizer que foram os irmãos Wright os pioneiros. Ambos os países têm argumentos: os americanos falam na precedência; nós na publicidade do vôo de Santos Dumont e no fato de que o avião dos irmãos Wright foi catapultado, enquanto o 14 Bis ergueu-se do solo por si mesmo. Sim, houve um tempo em que defendíamos nossos compatriotas.
No trágico vôo da nave Columbia, que em fevereiro de 2003 se desintegrou ao reingressar na atmosfera, morreu o primeiro astronauta israelense, Ilan Ramon. Os restos mortais do infortunado viajante espacial foram recebidos com honras em seu país, e sua morte foi chorada nas ruas. Comoção nacional. É perfeitamente natural e lógico que seja assim.
No Brasil, nada se fala a respeito do centenário da aviação, justo em 2006. Pior: tornou-se moda, nas duas últimas semanas, achincalhar e ridicularizar o major-aviador Marcos Pontes, que, vencendo mil dificuldades, ultrapassando nossa condição terceiro-mundista, entregando-se a exercícios penosos e prolongados, extenuado até a medula, pratica a façanha de ser o primeiro astronauta brasileiro.
Ó nação, é tão baixa tua auto-estima, que te faz degradar nossas melhores qualidades? Por que não nos julgamos merecedores de ir além do futebol e do Carnaval?
Certa autoridade nacional na área da astronomia está levianamente a dizer que falta relevância científica na pesquisa de Marcos Pontes. Uma ponchada de cientistas, entretanto, o contesta. Quanto a isso, não sei como julgar, por me faltarem estudos na área; mas sei que alçar-se à estratosfera, aprender com os mais sábios e marcar a presença do Brasil, são razões para lá de importantes.
Marcos Pontes fez o comovente e humano gesto de honrar sua nacionalidade ao apontar a bandeira colada em seu macacão. Fez o que fazem todos os astronautas com suas respectivas bandeiras, e por isso são engrandecidos em seus países.
Quanto a nós, não: que se apague esse crime de desejar ser brasileiro. E, aproveitando essa onda derrotista, que entreguemos, de vez, o galardão aos irmãos Wright.
fonte: jornal "Zero Hora" 9 abr 2006
Um abraço e até mais...
Cláudio Severino da Silva
jambock@brturbo.com.br
Astronauta brasileiro
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