Caviar e contratos milionarios
Enviado: Qui Mar 23, 2006 12:35
Caviar e contratos milionarios | 23.03.2006
Documentos obtidos pela Revista EXAME revelam o caos administrativo da Varig. Ate o compadre do presidente Lula recebia dinheiro da empresa
Segundo a revista EXAME, a Varig anunciou recentemente um conjunto de medidas para finalmente organizar o caos administrativo em que se encontra. Orientada pela consultoria americana Alvarez & Marsal, a reestruturação será iniciada com um ajus te draconiano (e necessário) na força de trabalho: a demissão de 2 500 funcionários, medida que deve gerar economia superior a 30 milhões de reais por mês. Para colocar em prática o plano de reestruturação, a Alvarez & Marsal trouxe três executivos americanos para dentro da companhia: Luis de Lucio, Douglas Lambert e Peter Cheston. O trio tem experiência na reorganização de empresas aéreas à beira da falência, tendo participado dos processos de recuperação de companhias como a US Airways e a AeroMexico. Apesar da experiência, os americanos vão enfrentar na Varig um desafio inédito em suas carreiras. De acordo com documentos obtidos com exclusividade pela revista EXAME, a bagunça gerencial na companhia que já foi sinônimo de aviação civil brasileira é muito maior do que se imaginava.
A reportagem teve acesso a uma série de correspondências trocadas entre executivos que comandaram a Varig nos últimos meses de 2005 e sua controladora, a Fundação Ruben Berta (FRB). Os documentos mostram o comportamento desconexo da fundação: seus representantes atrapalharam quanto puderam o trabalho dos profissionais que eles mesmos contrataram. Além disso, a revista realizou entrevistas com ex-diretores e observadores internos da crise. Com base nos documentos e nos depoimentos, foi possível traçar um perfil do caos em que se transformou a Varig -- uma empresa na qual os departamentos não dialogavam entre si, os suprimentos eram desviados para os salões da alta sociedade carioca e os contratos eram assinados sem o conhecimento da diretoria. Em meio à crise, até mesmo pessoas próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitaram a oportunidade para tentar lucrar com a crise da companhia.
Ex-presidente do conselho de administração da Transbrasil e compadre do presidente Lula, o advogado Roberto Teixeira é um dos personagens dessa trama. Se não fosse por uma auditoria, realizada pela administração da época, Teixeira seria beneficiário de um polpudo contrato. A título de serviços de consultoria, o advogado poderia receber até 105 milhões de reais. A transação foi descoberta em uma operação pente-fino que revelou dez acordos em condições suspeitas. Esses contratos eram aprovados diretamente por um ou dois diretores, sem o conhecimento do restante da diretoria e do departamento jurídico. No caso de Teixeira, seu escritório foi contratado para auxiliar a Varig a receber créditos tributários de ICMS, estimados em 700 milhões de reais. Pelo acordo, o compadre de Lula teria direito a 450 000 reais, divididos em três parcelas, e uma bolada caso a manobra desse certo -- 15% do total dos créditos da empresa (os tais 105 milhões). Com a suspensão do contrato, após o parecer da auditoria, Teixeira recebeu pelo menos 300 000 reais pelo trabalho. Procurado pela revista, o advogado não deu entrevista.
DADOS ILUSTRATIVOS
Pior que as concorrentes A Varig é superada em desempenho Resultado operacional(1) (em milhões de reais)
Gol 424
TAM 187
Varig - 780
Funcionários
Gol 6 000
TAM 9 600
Varig 11 000
CUSTO POR ASSENTOS EM REAIS, no trecho Rio–SP
Gol 66
TAM 74
Varig 87
(1) Dados de 2005
Negociações pouco transparentes como essa se misturam à cultura perdulária da Varig. O comportamento da empresa é semelhante ao de um aristocrata decadente que já perdeu todo o dinheiro mas ainda faz festas de arromba para manter a pose. Mesmo com uma dívida de mais de 10 bilhões de reais, a Varig manteve custos altíssimos e descontrolados. Um dos exemplos beira o folclore. Até bem pouco tempo atrás, quando a administraçao ainda era gaucha, a Varig incluía no serviço de bordo da primeira classe a opção de caviar para passageiros. A iguaria abastecia os vôos da empresa e algumas das festas mais badaladas do Rio de Janeiro. Em uma entrevista ao Jornal do Brasil, o promoter Bruno Chateaubriand declarou que só fazia festas com "o caviar da Varig". Segundo Chateaubriand, as latinhas chegavam às suas mãos por 90 reais, um quinto do valor de mercado. Não há notícia de que a Varig tenha recebido um tostão sequer por essa operação. Os custos do caviar, porém, foram mensurados: 6 milhões de reais ao ano.
A falta de organização na companhia foi atestada no ano passado por um relatório realizado pela Lufthansa Consulting. A consultoria constatou que existe uma falta de articulação crônica entre os diversos setores da Varig. O estudo apresentado à direção da empresa aponta dificuldades na comunicação entre os departamentos financeiro, de recursos humanos, comercial e de informática. Um dos exemplos de ausência de interação foi a descoberta de 20 laptops -- novinhos em folha -- trancados em um armário do departamento de informática. Os computadores tinham sido comprados para os executivos da empresa, mas o lote se perdeu em meio à burocracia e ninguém da direção sabia de sua existência. Recentemente, também se descobriu que o sistema de reserva de passagens pela internet (uma poderosa arma da concorrente Gol) está tão desatualizado que não tem mais assistência técnica da IBM, fornecedora do programa. São os próprios funcionários da Varig que acumulam tarefas e fazem a manutenção do serviço. Sobre a situação caótica da administração da empresa, o vice-presidente da Fundação Ruben Berta, Adenias Gonçalves Filho, deu uma única declaração: "Não faz parte das atribuições da fundação interferir na operação do dia-a-dia da presidência".
Fundada em 1927, a Varig tem uma história de glórias. Na década de 70, quando ganhou o monopólio dos vôos internacionais no Brasil, era referência do país no exterior. Nessa época, seus 111 escritórios internacionais funcionavam como extensão das embaixadas brasileiras e o faturamento com essas viagens respondia por 70% da receita da companhia. O fim do monopólio dos vôos internacionais, derrubado durante o governo Fernando Collor, foi um duro golpe para a empresa. No mesmo ano, a Varig passou a ter prejuízo e, desde então, não conseguiu reagir às dificuldades financeiras. Uma das razões para essa letargia administrativa foi a maneira como a empresa se relacionava com o Estado brasileiro. Como alguns dos maiores credores da companhia são órgãos pú blicos ou pertencem a estatais (Infraero e BR Distribuidora), seus acionistas acreditavam que poderiam ter suas dívidas roladas ou perdoadas -- o que aconteceu algumas vezes. "A Varig sempre achava que o governo iria dar um jeito. Seus controladores imaginavam que, de repente, uma fada madrinha resolveria o problema com uma varinha de condão. Não entenderam que o Estado brasileiro tinha mudado", diz Luiz Martins, ex-presidente da Varig.
Sem conseguir fôlego para se recuperar, a empresa entrou numa espiral de equívocos. Um dos maiores foi a alta rotatividade de presidentes. Desde 1995, 11 profissionais e um comitê já passaram pela presidência da companhia. Esse intenso troca-troca deixou a Varig com a média de um presidente por ano, enquanto a média do setor é de um presidente a cada cinco anos. Só em 2005, quatro executivos ocuparam essa função. "Com uma cultura empresarial sólida e uma estratégia bem definida, ainda é possível atravessar uma época de instabilidade no comando. Na Varig, a cultura da empresa é bem definida, mas a estratégia não. E quando você não sabe para onde vai não há vento que seja a favor", diz a professora Betânia Tanure, da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte.
O sistema de governança contribuiu bastante para deixar a empresa nesse caos administrativo. Desde 1945 até recentemente, a Varig foi controlada pela Fundação Ruben Berta. Dona de 87% das ações, a FRB transformou os funcionários em donos da companhia -- o que acabou por gerar um previsível conflito de interesses. Os empregados acumularam regalias e direitos e passaram a gozar de uma estabilidade inédita em companhias desse tipo. Mas no momento de realizar sacrifícios para equilibrar a saúde financeira não se registrou nenhum movimento dos funcionários ou da FRB. Muitas vezes, a entidade parecia trabalhar contra a própria Varig. "Os pilotos se protegem, o pessoal da área de vendas defende seus interesses e assim por diante. Ninguém pensa na empresa", diz Arnin Lore, presidente da Varig por quatro meses, de agosto a novembro de 2002.
A última grande confusão armada pela Fundação Ruben Berta foi a relação conflituosa que travou com executivos que ela mesma contratou. Em maio do ano passado, a FRB trouxe David Zylberstajn, ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), para tentar colocar um mínimo de ordem na casa. Acompanhado de outros executivos, Zylberstajn ficou seis meses à frente da companhia. O relacionamento com a FRB foi desastroso. Em pelo menos duas oportunidades, o executivo sentiu-se atropelado pelos representantes da fundação. O descontentamento gerou troca de cartas entre Zylberstajn e seu grupo e a Fundação Ruben Berta. Num dos episódios que ajudaram a piorar a relação, um advogado da FRB ligou para o escritório do presidente da TAP, Fernando Pinto, em Lisboa. No telefonema, o advogado pedia que a companhia portuguesa negociasse a compra da Varig diretamente com a fundação, ignorando os executivos. Educadamente, Pinto -- também um ex-presidente da Varig -- despachou o interlocutor. O segundo incidente ocorreu semanas depois, quando o presidente da Varig, Omar Carneiro da Cunha, acusou nova interferência da fundação, desta vez junto à empresa ATS International, que negociava a compra da Varig Engenharia e Manutenção, a VEM.
A turbulenta trajetória da Varig
A empresa que foi sinônimo de Brasil no exterior passa por uma crise que já dura 15 anos
1927
É fundada no Rio Grande do Sul como empresa regional pelo alemão Otto Meyer
1955
Faz o primeiro vôo para Nova York com um avião Super Constellation
1973
Decreto do presidente Medici garante à Varig o monopólio dos vôos internacionais
1994
Prejuízo de 1 bilhão de dólares e redução no patrimônio provocam demissões e entrega de aviões
2005
Sob ameaça de arresto de seus aviões, a Varig entra em processo de recuperação judicial e vende duas subsidiárias
A luta da turma de Zylberstajn com a FRB não teve vencedores. A equipe do executivo foi demitida e ainda tenta negociar o pagamento de uma rescisão contratual. A fundação também saiu derrotada ao final do processo. A Justiça afastou a FRB do controle da empresa depois de uma frustrada negociação com o grupo Docas, do empresário Nelson Tanure. "Eles agiram em interesse próprio e não no da companhia. A FRB abusou do poder de controle", diz a juíza Márcia Cunha, da 8a Vara Empresarial do Rio, responsável pelo afastamento. A grande questão agora é saber se os novos administradores da empresa conseguirão transformar a Varig numa companhia com alguma chance de sobrevivência. Para isso, precisam eliminar os vícios deixados pela cultura anterior -- tarefa das mais complicadas. As demissões anunciadas são um passo nesse processo, mas outras medidas precisarão ser tomadas para que a Varig volte mais uma vez a seus dias de glória.
Com reportagem de João Paulo Gomes e Tiago Lethbridge
Revista Exame
Documentos obtidos pela Revista EXAME revelam o caos administrativo da Varig. Ate o compadre do presidente Lula recebia dinheiro da empresa
Segundo a revista EXAME, a Varig anunciou recentemente um conjunto de medidas para finalmente organizar o caos administrativo em que se encontra. Orientada pela consultoria americana Alvarez & Marsal, a reestruturação será iniciada com um ajus te draconiano (e necessário) na força de trabalho: a demissão de 2 500 funcionários, medida que deve gerar economia superior a 30 milhões de reais por mês. Para colocar em prática o plano de reestruturação, a Alvarez & Marsal trouxe três executivos americanos para dentro da companhia: Luis de Lucio, Douglas Lambert e Peter Cheston. O trio tem experiência na reorganização de empresas aéreas à beira da falência, tendo participado dos processos de recuperação de companhias como a US Airways e a AeroMexico. Apesar da experiência, os americanos vão enfrentar na Varig um desafio inédito em suas carreiras. De acordo com documentos obtidos com exclusividade pela revista EXAME, a bagunça gerencial na companhia que já foi sinônimo de aviação civil brasileira é muito maior do que se imaginava.
A reportagem teve acesso a uma série de correspondências trocadas entre executivos que comandaram a Varig nos últimos meses de 2005 e sua controladora, a Fundação Ruben Berta (FRB). Os documentos mostram o comportamento desconexo da fundação: seus representantes atrapalharam quanto puderam o trabalho dos profissionais que eles mesmos contrataram. Além disso, a revista realizou entrevistas com ex-diretores e observadores internos da crise. Com base nos documentos e nos depoimentos, foi possível traçar um perfil do caos em que se transformou a Varig -- uma empresa na qual os departamentos não dialogavam entre si, os suprimentos eram desviados para os salões da alta sociedade carioca e os contratos eram assinados sem o conhecimento da diretoria. Em meio à crise, até mesmo pessoas próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitaram a oportunidade para tentar lucrar com a crise da companhia.
Ex-presidente do conselho de administração da Transbrasil e compadre do presidente Lula, o advogado Roberto Teixeira é um dos personagens dessa trama. Se não fosse por uma auditoria, realizada pela administração da época, Teixeira seria beneficiário de um polpudo contrato. A título de serviços de consultoria, o advogado poderia receber até 105 milhões de reais. A transação foi descoberta em uma operação pente-fino que revelou dez acordos em condições suspeitas. Esses contratos eram aprovados diretamente por um ou dois diretores, sem o conhecimento do restante da diretoria e do departamento jurídico. No caso de Teixeira, seu escritório foi contratado para auxiliar a Varig a receber créditos tributários de ICMS, estimados em 700 milhões de reais. Pelo acordo, o compadre de Lula teria direito a 450 000 reais, divididos em três parcelas, e uma bolada caso a manobra desse certo -- 15% do total dos créditos da empresa (os tais 105 milhões). Com a suspensão do contrato, após o parecer da auditoria, Teixeira recebeu pelo menos 300 000 reais pelo trabalho. Procurado pela revista, o advogado não deu entrevista.
DADOS ILUSTRATIVOS
Pior que as concorrentes A Varig é superada em desempenho Resultado operacional(1) (em milhões de reais)
Gol 424
TAM 187
Varig - 780
Funcionários
Gol 6 000
TAM 9 600
Varig 11 000
CUSTO POR ASSENTOS EM REAIS, no trecho Rio–SP
Gol 66
TAM 74
Varig 87
(1) Dados de 2005
Negociações pouco transparentes como essa se misturam à cultura perdulária da Varig. O comportamento da empresa é semelhante ao de um aristocrata decadente que já perdeu todo o dinheiro mas ainda faz festas de arromba para manter a pose. Mesmo com uma dívida de mais de 10 bilhões de reais, a Varig manteve custos altíssimos e descontrolados. Um dos exemplos beira o folclore. Até bem pouco tempo atrás, quando a administraçao ainda era gaucha, a Varig incluía no serviço de bordo da primeira classe a opção de caviar para passageiros. A iguaria abastecia os vôos da empresa e algumas das festas mais badaladas do Rio de Janeiro. Em uma entrevista ao Jornal do Brasil, o promoter Bruno Chateaubriand declarou que só fazia festas com "o caviar da Varig". Segundo Chateaubriand, as latinhas chegavam às suas mãos por 90 reais, um quinto do valor de mercado. Não há notícia de que a Varig tenha recebido um tostão sequer por essa operação. Os custos do caviar, porém, foram mensurados: 6 milhões de reais ao ano.
A falta de organização na companhia foi atestada no ano passado por um relatório realizado pela Lufthansa Consulting. A consultoria constatou que existe uma falta de articulação crônica entre os diversos setores da Varig. O estudo apresentado à direção da empresa aponta dificuldades na comunicação entre os departamentos financeiro, de recursos humanos, comercial e de informática. Um dos exemplos de ausência de interação foi a descoberta de 20 laptops -- novinhos em folha -- trancados em um armário do departamento de informática. Os computadores tinham sido comprados para os executivos da empresa, mas o lote se perdeu em meio à burocracia e ninguém da direção sabia de sua existência. Recentemente, também se descobriu que o sistema de reserva de passagens pela internet (uma poderosa arma da concorrente Gol) está tão desatualizado que não tem mais assistência técnica da IBM, fornecedora do programa. São os próprios funcionários da Varig que acumulam tarefas e fazem a manutenção do serviço. Sobre a situação caótica da administração da empresa, o vice-presidente da Fundação Ruben Berta, Adenias Gonçalves Filho, deu uma única declaração: "Não faz parte das atribuições da fundação interferir na operação do dia-a-dia da presidência".
Fundada em 1927, a Varig tem uma história de glórias. Na década de 70, quando ganhou o monopólio dos vôos internacionais no Brasil, era referência do país no exterior. Nessa época, seus 111 escritórios internacionais funcionavam como extensão das embaixadas brasileiras e o faturamento com essas viagens respondia por 70% da receita da companhia. O fim do monopólio dos vôos internacionais, derrubado durante o governo Fernando Collor, foi um duro golpe para a empresa. No mesmo ano, a Varig passou a ter prejuízo e, desde então, não conseguiu reagir às dificuldades financeiras. Uma das razões para essa letargia administrativa foi a maneira como a empresa se relacionava com o Estado brasileiro. Como alguns dos maiores credores da companhia são órgãos pú blicos ou pertencem a estatais (Infraero e BR Distribuidora), seus acionistas acreditavam que poderiam ter suas dívidas roladas ou perdoadas -- o que aconteceu algumas vezes. "A Varig sempre achava que o governo iria dar um jeito. Seus controladores imaginavam que, de repente, uma fada madrinha resolveria o problema com uma varinha de condão. Não entenderam que o Estado brasileiro tinha mudado", diz Luiz Martins, ex-presidente da Varig.
Sem conseguir fôlego para se recuperar, a empresa entrou numa espiral de equívocos. Um dos maiores foi a alta rotatividade de presidentes. Desde 1995, 11 profissionais e um comitê já passaram pela presidência da companhia. Esse intenso troca-troca deixou a Varig com a média de um presidente por ano, enquanto a média do setor é de um presidente a cada cinco anos. Só em 2005, quatro executivos ocuparam essa função. "Com uma cultura empresarial sólida e uma estratégia bem definida, ainda é possível atravessar uma época de instabilidade no comando. Na Varig, a cultura da empresa é bem definida, mas a estratégia não. E quando você não sabe para onde vai não há vento que seja a favor", diz a professora Betânia Tanure, da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte.
O sistema de governança contribuiu bastante para deixar a empresa nesse caos administrativo. Desde 1945 até recentemente, a Varig foi controlada pela Fundação Ruben Berta. Dona de 87% das ações, a FRB transformou os funcionários em donos da companhia -- o que acabou por gerar um previsível conflito de interesses. Os empregados acumularam regalias e direitos e passaram a gozar de uma estabilidade inédita em companhias desse tipo. Mas no momento de realizar sacrifícios para equilibrar a saúde financeira não se registrou nenhum movimento dos funcionários ou da FRB. Muitas vezes, a entidade parecia trabalhar contra a própria Varig. "Os pilotos se protegem, o pessoal da área de vendas defende seus interesses e assim por diante. Ninguém pensa na empresa", diz Arnin Lore, presidente da Varig por quatro meses, de agosto a novembro de 2002.
A última grande confusão armada pela Fundação Ruben Berta foi a relação conflituosa que travou com executivos que ela mesma contratou. Em maio do ano passado, a FRB trouxe David Zylberstajn, ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), para tentar colocar um mínimo de ordem na casa. Acompanhado de outros executivos, Zylberstajn ficou seis meses à frente da companhia. O relacionamento com a FRB foi desastroso. Em pelo menos duas oportunidades, o executivo sentiu-se atropelado pelos representantes da fundação. O descontentamento gerou troca de cartas entre Zylberstajn e seu grupo e a Fundação Ruben Berta. Num dos episódios que ajudaram a piorar a relação, um advogado da FRB ligou para o escritório do presidente da TAP, Fernando Pinto, em Lisboa. No telefonema, o advogado pedia que a companhia portuguesa negociasse a compra da Varig diretamente com a fundação, ignorando os executivos. Educadamente, Pinto -- também um ex-presidente da Varig -- despachou o interlocutor. O segundo incidente ocorreu semanas depois, quando o presidente da Varig, Omar Carneiro da Cunha, acusou nova interferência da fundação, desta vez junto à empresa ATS International, que negociava a compra da Varig Engenharia e Manutenção, a VEM.
A turbulenta trajetória da Varig
A empresa que foi sinônimo de Brasil no exterior passa por uma crise que já dura 15 anos
1927
É fundada no Rio Grande do Sul como empresa regional pelo alemão Otto Meyer
1955
Faz o primeiro vôo para Nova York com um avião Super Constellation
1973
Decreto do presidente Medici garante à Varig o monopólio dos vôos internacionais
1994
Prejuízo de 1 bilhão de dólares e redução no patrimônio provocam demissões e entrega de aviões
2005
Sob ameaça de arresto de seus aviões, a Varig entra em processo de recuperação judicial e vende duas subsidiárias
A luta da turma de Zylberstajn com a FRB não teve vencedores. A equipe do executivo foi demitida e ainda tenta negociar o pagamento de uma rescisão contratual. A fundação também saiu derrotada ao final do processo. A Justiça afastou a FRB do controle da empresa depois de uma frustrada negociação com o grupo Docas, do empresário Nelson Tanure. "Eles agiram em interesse próprio e não no da companhia. A FRB abusou do poder de controle", diz a juíza Márcia Cunha, da 8a Vara Empresarial do Rio, responsável pelo afastamento. A grande questão agora é saber se os novos administradores da empresa conseguirão transformar a Varig numa companhia com alguma chance de sobrevivência. Para isso, precisam eliminar os vícios deixados pela cultura anterior -- tarefa das mais complicadas. As demissões anunciadas são um passo nesse processo, mas outras medidas precisarão ser tomadas para que a Varig volte mais uma vez a seus dias de glória.
Com reportagem de João Paulo Gomes e Tiago Lethbridge
Revista Exame