Belém e interior na rota da cocaína
Enviado: Ter Fev 14, 2006 12:04
Belém e interior na rota da cocaína
O Liberal
Sucessivas apreensões de cocaína em Belém e no interior, neste início de ano, mostram a nova rota do tráfico e o trabalho da Polícia para reprimi-lo
Jorge Herberth
As notícias sobre apreensão de pasta e de pó de cocaína ilustraram os jornais durante todo o mês de janeiro, e aumentaram nessas duas últimas semanas. Pelas apreensões é possível acreditar que, além de rota interestadual e internacional, a capital e o interior do estado estão sendo abastecidos pelos traficantes para o carnaval, um período de alto consumo.
As apreensões em Belém e no interior ilustram, de forma significativa e realista, a suspeita de que a capital e vários municípios do Estado estão sendo usados com mais frequência pelas quadrilhas do narcotráfico, conforme mostram as notícias sobre apreensões e prisões feitas em Belém e em outros municípios do Pará, nesse primeiro mês do ano.
Em apenas 6 dias, a Polícia Federal apreendeu cerca de 70 quilos de cocaína, a maior quantidade - cerca de 50 quilos - no aeroporto internacional de Belém. Nas três apreensões, as “mulas” transportavam cocaína presa ao corpo e em malas. Com 12 quilos, em um vôo da Rico Linhas Aéreas, vindo de Manaus, foram presos Josenar de Araújo Ferreira, 24, Azael Pereira Cruz, 42, natural de Santa Inêz, no Maranhão, e um adolescente de 17 anos. Ele e Josenar moravam em Benjamim Constant (AM), fronteira com a Colômbia.
Em um porto da Estrada Nova, periferia de Belém, foram apreeendidos cerca de 22 quilos de cocaína. A maior apreensão até agora na área urbana, quando foram presos Esdras Pinto Cruz, colombiano da cidade de Letícia, Adonias Nascimento, de Manaus (AM), o açougueiro Jessé Martins e o taxista Ival Marcos Nascimento, de Belém. Outros dois traficantes conseguiram escapar e estão foragidos. A droga foi trazida de Tabatinga, no Amazonas, e seria levada para Fortaleza, no Ceará.
Na passagem Mirandinha, n°124, no bairro da Sacramenta em Belém, foram encontradas 9 petecas de pasta de cocaína, conhecida também como “merla”, na quinta feira passada. A dona da casa Sueli Mendes Quaresma, de 36 anos, conhecida como “Santana”, foi presa em flagrante depois de uma denúncia anônima. Ela disse à Polícia que a droga é da irmã, que se chama Maria Mendes Quaresma. “Não vou negar, a droga é dela, que estava precisando pagar uma dívida. Mas ela só ia fazer isso durante três meses, para se estabelecer”, alegou. A polícia afirma que Sueli fazia da casa um ponto de venda e consumo de drogas.
Sidney Cézar Guimarães da Silva, na rua Val-de-Cães, quadra 73, casa 70, no bairro da Cabanagem foi preso com 56 petecas de pasta de cocaína e 76 cartuchos de maconha. Sidney já tem uma ficha por tráfico e assaltos a banco, mas diz que é açougueiro.
A detenção de um adolescente de 15 anos, acusado de furtar dois celulares e uma bicicleta do irmão levaram a prisão do traficante Antônio José Pereira, de 21 anos, na rua Violeta, no loteamento Açai, no bairro do Tapanã, onde a Polícia encontrou 59 petecas de cocaína. O menor confessou que trocou os celulares por 40 petecas. Antônio Pereira confessou que comprou três porções de 100 gramas de cocaína a mil reais.
Manuel de Jesus Ferreira foi preso no Guamá, depois de denúncias anônimas. Manuel seria um dos vendedores de drogas no bairro. Com ele a polícia encontrou 25 gramas de pasta base de cocaína e deteve um dependente que se diz viciado em cocaína há mais de dez anos.
Em Barcarena, foi preso o traficante Luciel Ribeiro da Costa, de 27 anos. Na casa do traficante, a polícia encontrou dezessete petecas de cocaína.
Em Santa Izabel, município a 46 quilômetros de Belém, no nordeste do Pará, foram presas Helen Silva Soeiro, de 20 anos, e Dayse Cristina Lavareda, 28 anos, com quase um quilo e meio de pasta de cocaína. Dayse contou à Polícia que recebeu a droga de um traficante de Belém.
Em Salvaterra, no arquipélago do Marajó, a quatro horas de Belém por via fluvial, a Polícia prendeu Maria das Graças Ferreira Garcia, de 39 anos, e o filho dela, Patrício Garcia Nóbrega, 18. Os dois foram presos em Vila Ceará, área rural de Salvaterra, com 62 petecas de pasta de cocaína e 88 cartuchos e um pacote com cerca de 300 gramas de maconha.
O menor J. B. M. Q, de 17 anos, foi preso com 45 petecas de pasta de cocaína, em Marabá, no sudeste do Estado. J. B. foi preso ano passado por assalto à mão armada.
Pequenos e grandes traficantes na mira
Em ações realizadas pela Polícia Federal em Belém até a última terça feira, 30 de janeiro, foram apreendidos quase 70 quilos de cocaína. Uma quantidade considerada média em cada apreensão, mas que é um alerta e reflete como a capital paraense está sendo usada atualmente pelo tráfico internacional como uma das principais rotas de distribuição da droga para o resto do Brasil, como Rio de Janeiro e São Paullo, mas principalmente para abastecer capitais do nordeste, já lotadas de turistas nesse período pré-carnavalesco.
Além do tráfico interestadual e internacional de cocaína, Belém e o interior também estão sendo abastecidos no mercado varejista por pasta de cocaína, para o consumo de usuários de todas as classes econômicas. A Polícia Civil, através da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, vinculada à Divisão de Repressão ao Crime Organizado, têm feito em Belém apreensões dessas drogas e prisões de traficantes toda semana. No interior, as apreensões aconteceram em municípios do arquipélago do Marajó, em Abaetetuba e Barcarena, municípios a cerca de duas horas de Belém e também consideradas rotas do tráfico, em Santa Izabel, a 46 quilômetros a nordeste do Estado, em Santarém, no oeste do Pará, em Altamira, no centro oeste, e Marabá, no sudeste.
Com uma geografia marcada pela tranquilidade de locomoção através dos rios e de estradas com pouca fiscalização, o Estado tem um cenário que facilita a ação de quadrilhas de traficantes, distribuidores e varejistas. É verdade que eles não estão agindo livremente, e que são significativas as prisões e apreensões de cocaína e pasta. Mas se considerarmos, segundo a própria Polícia Civil, que 1 quilo de pedra de óxido de cocaína dissolvida em uma mistura química pode render até 6 quilos de pasta de cocaína, já são muito preocupantes os dados sobre apreensão e consumo. E o pior: a mistura que dissolve a cocaína sólida é uma alquimia perigosa feita de solução de bateria, ácido muriático, barrilha usada para limpeza de piscinas, além de outros produtos químicos que podem ser mortais e são profundamente nocivos à saúde de quem consome a pasta.
O alerta às famílias para evitar que seus filhos consumam essa bomba relógio que é a cocaína nas suas mais variadas formas, as ações para combater a rede do tráfico e as apreensões feitas em 2006, são os assuntos de nossa reportagem, em uma conversa com dois dos delegados responsáveis pela repressão a todas às drogas e outros crimes, mas com abordagem sobre o combate ao tráfico de cocaína. (J. H.)
Belém é rota, mas o tráfico está vigiado, diz superintendente da Polícia Federal
O delegado José Sales, Superintendente da Políica Federal no Pará, afirma que os traficantes pensam de forma prática, econômica e preocupados com a segurança. Mas se enganaram quando pensaram que pelo aeroporto iriam encontrar facilidades. “Deu tudo errado para eles, fizemos quatro apreensões médias seguidas”, comemora sobre as apreensões nesse inicio de ano. Além da cocaína, a PF prendeu 11 pessoas, as chamdas “mulas”, entre elas um adolescente e uma mulher.
Mesmo assim, ele reconhece que Belém continua como uma das rotas mais usadas para a distribuição de cocaína para o nordeste. “Boa parte da cocaína destinada ao consumo nas capitais nordestina tende a passar pelo Pará. Ou desembarcando, fazendo uma conexão, ou diretamente em vôos que passam por Belém e nos quais as pessoas vão direto para São Luiz no Maranhão, Fortaleza no Ceará ou Recife, em Pernambuco. As estatísticas indicam que as ‘mulas’ passam por Belém ou por cidades do interior, como Marabá e Santarém”, diz ele.
Como há muitas alternativas, é possível aos traficantes o uso de diversas rotas e meios, mas o superintendente avisa que não está fácil a eles o uso de rotas alternativas. Mais equipada e atuando de forma integrada com outras superintendências, as estratégias da PF do Pará estão dando certo no combate ao tráfico. De olho nas conexões das quadrilhas presas este ano, a PF continua investigando possíveis conexões entre elas, já que toda a cocaína que chega a Belém vem da Colômbia, mesmo com algumas quadrilhas fazendo refinamento no Suriname.
Com as apreensões, o superintendente afirma que é necessário mais vigilância e trabalho de inteligência. “Estamos mais atentos e precisamos aumentar o contingente em pontos estratégicos”.
Para reforçar a repressão em pontos de venda na cidade, a PF está criando uma parceria para atuar junto com as Polícias Civil e Militar. “A cooperação vai permitir o combate a pontos críticos do tráfico dentro da cidade, que alimenta esses índices alarmantes da violência em Belém, inclusive com a posse ilegal de arma, que tem a ver com o consumo de drogas”. (J. H.)
DRE admite aumento, mas afirma que Belém não é o maior corredor da droga
Para o delegado Ivanildo Pereira dos Santos, titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), vinculada à Divisão de Combate ao Crime Organizado (DRCO), houve aumento de tráfico e na distribuição de pó e pasta de cocaína em Belém. Mas a a cidade não é uma das maiores consumidoras dessas drogas. Ele atribui a fatores sociais, como a falta de emprego e principalmente a migração de criminosos de outras áreas para o tráfico. “Fizemos várias prisões de ex-assaltantes que viraram traficantes”, afirma. Segundo ele, a pasta de cocaína que abastece Belém e os municípios do interior vem normalmente de Tabatinga, pela calha do rio Amazonas, e por estrada, trazida do Acre, Rondônia, passando por Cuiabá, no Mato Grosso, Goiás, até chegar aqui pela Belém-Brasília.
A Polícia Civil já sabe que vários grupos atuando na distribuição de cocaína na grande Belém. O delegado diz que são grupos do Pará, Amazonas, Acre, Rondônia, Bolívia e Colômbia. Quando trazem a cocaína de barco, os traficantes estão usando um desvio por terra e depois voltam novamente ao rio até chegar a Abaetetuba, Barcarena e Belém direto, onde entregam aos distribuidores que levam aos varejistas, para a venda ao usuário.
Ivanildo Pereira garante que a polícia já tem um mapeamento dos locais de venda de pasta e pó de cocaína, e os fornecedores considerados mais conhecidos. Ele também garante que, a Polícia está preparada para intensificar a repressão aos fornecedores. “Oito deles já foram presos, mas é preciso prender o grande traficante antes que ele consiga fazer a distribuição, como tem feito a Polícia Federal. Queremos chegar pelo menos a níveis toleráveis porque o tráfico é o pior tormento para as famílias e a sociedade”, diz ele.
O delegado credita o aumento do consumo à questão social, do ponto de vista moral. Ele critica o excesso de liberdade, a degradação da família e das instituições. Para que melhorasse a prevenção e a repressão, o delegado gostaria que a polícia estivesse mais aparelhada, com maior número de policiais, a justiça decidisse a punição de forma mais rápida, maior participação do Ministério Público nessa questão, para atingir de forma mais contundente o tráfico e o crime em geral.
Além de aumento da proteção social com mais lazer, esporte e cultura para a juventude, ele diz que também são necessários mais centros de recuperação, para tratamento do grande número de dependentes que existe hoje.
Para a DRE, Belém não é a cidade de maior consumo de pasta e nem de pó de cocaína, apesar da popularização e das facilidades para a compra da pasta, que só fez aumentar o trabalho da polícia, segundo o delegado. “Não é uma febre em Belém, é o mesmo nível de consumo ou até mais baixo de que outras capitais”, garante.
O delegado coloca o trabalho educativo da DRE à disposição de escolas e instituições, para palestras educativas de como evitar, proteger e detectar o envolvimento dos filhos com as drogas.
A DRE também coloca o Disque Denúncia (anônima) à disposição da população. O número é 3233-3309. E os telefones para falar com a DRE são 4006-8134 e 9943-0352. (J. H.)
O Liberal
Sucessivas apreensões de cocaína em Belém e no interior, neste início de ano, mostram a nova rota do tráfico e o trabalho da Polícia para reprimi-lo
Jorge Herberth
As notícias sobre apreensão de pasta e de pó de cocaína ilustraram os jornais durante todo o mês de janeiro, e aumentaram nessas duas últimas semanas. Pelas apreensões é possível acreditar que, além de rota interestadual e internacional, a capital e o interior do estado estão sendo abastecidos pelos traficantes para o carnaval, um período de alto consumo.
As apreensões em Belém e no interior ilustram, de forma significativa e realista, a suspeita de que a capital e vários municípios do Estado estão sendo usados com mais frequência pelas quadrilhas do narcotráfico, conforme mostram as notícias sobre apreensões e prisões feitas em Belém e em outros municípios do Pará, nesse primeiro mês do ano.
Em apenas 6 dias, a Polícia Federal apreendeu cerca de 70 quilos de cocaína, a maior quantidade - cerca de 50 quilos - no aeroporto internacional de Belém. Nas três apreensões, as “mulas” transportavam cocaína presa ao corpo e em malas. Com 12 quilos, em um vôo da Rico Linhas Aéreas, vindo de Manaus, foram presos Josenar de Araújo Ferreira, 24, Azael Pereira Cruz, 42, natural de Santa Inêz, no Maranhão, e um adolescente de 17 anos. Ele e Josenar moravam em Benjamim Constant (AM), fronteira com a Colômbia.
Em um porto da Estrada Nova, periferia de Belém, foram apreeendidos cerca de 22 quilos de cocaína. A maior apreensão até agora na área urbana, quando foram presos Esdras Pinto Cruz, colombiano da cidade de Letícia, Adonias Nascimento, de Manaus (AM), o açougueiro Jessé Martins e o taxista Ival Marcos Nascimento, de Belém. Outros dois traficantes conseguiram escapar e estão foragidos. A droga foi trazida de Tabatinga, no Amazonas, e seria levada para Fortaleza, no Ceará.
Na passagem Mirandinha, n°124, no bairro da Sacramenta em Belém, foram encontradas 9 petecas de pasta de cocaína, conhecida também como “merla”, na quinta feira passada. A dona da casa Sueli Mendes Quaresma, de 36 anos, conhecida como “Santana”, foi presa em flagrante depois de uma denúncia anônima. Ela disse à Polícia que a droga é da irmã, que se chama Maria Mendes Quaresma. “Não vou negar, a droga é dela, que estava precisando pagar uma dívida. Mas ela só ia fazer isso durante três meses, para se estabelecer”, alegou. A polícia afirma que Sueli fazia da casa um ponto de venda e consumo de drogas.
Sidney Cézar Guimarães da Silva, na rua Val-de-Cães, quadra 73, casa 70, no bairro da Cabanagem foi preso com 56 petecas de pasta de cocaína e 76 cartuchos de maconha. Sidney já tem uma ficha por tráfico e assaltos a banco, mas diz que é açougueiro.
A detenção de um adolescente de 15 anos, acusado de furtar dois celulares e uma bicicleta do irmão levaram a prisão do traficante Antônio José Pereira, de 21 anos, na rua Violeta, no loteamento Açai, no bairro do Tapanã, onde a Polícia encontrou 59 petecas de cocaína. O menor confessou que trocou os celulares por 40 petecas. Antônio Pereira confessou que comprou três porções de 100 gramas de cocaína a mil reais.
Manuel de Jesus Ferreira foi preso no Guamá, depois de denúncias anônimas. Manuel seria um dos vendedores de drogas no bairro. Com ele a polícia encontrou 25 gramas de pasta base de cocaína e deteve um dependente que se diz viciado em cocaína há mais de dez anos.
Em Barcarena, foi preso o traficante Luciel Ribeiro da Costa, de 27 anos. Na casa do traficante, a polícia encontrou dezessete petecas de cocaína.
Em Santa Izabel, município a 46 quilômetros de Belém, no nordeste do Pará, foram presas Helen Silva Soeiro, de 20 anos, e Dayse Cristina Lavareda, 28 anos, com quase um quilo e meio de pasta de cocaína. Dayse contou à Polícia que recebeu a droga de um traficante de Belém.
Em Salvaterra, no arquipélago do Marajó, a quatro horas de Belém por via fluvial, a Polícia prendeu Maria das Graças Ferreira Garcia, de 39 anos, e o filho dela, Patrício Garcia Nóbrega, 18. Os dois foram presos em Vila Ceará, área rural de Salvaterra, com 62 petecas de pasta de cocaína e 88 cartuchos e um pacote com cerca de 300 gramas de maconha.
O menor J. B. M. Q, de 17 anos, foi preso com 45 petecas de pasta de cocaína, em Marabá, no sudeste do Estado. J. B. foi preso ano passado por assalto à mão armada.
Pequenos e grandes traficantes na mira
Em ações realizadas pela Polícia Federal em Belém até a última terça feira, 30 de janeiro, foram apreendidos quase 70 quilos de cocaína. Uma quantidade considerada média em cada apreensão, mas que é um alerta e reflete como a capital paraense está sendo usada atualmente pelo tráfico internacional como uma das principais rotas de distribuição da droga para o resto do Brasil, como Rio de Janeiro e São Paullo, mas principalmente para abastecer capitais do nordeste, já lotadas de turistas nesse período pré-carnavalesco.
Além do tráfico interestadual e internacional de cocaína, Belém e o interior também estão sendo abastecidos no mercado varejista por pasta de cocaína, para o consumo de usuários de todas as classes econômicas. A Polícia Civil, através da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, vinculada à Divisão de Repressão ao Crime Organizado, têm feito em Belém apreensões dessas drogas e prisões de traficantes toda semana. No interior, as apreensões aconteceram em municípios do arquipélago do Marajó, em Abaetetuba e Barcarena, municípios a cerca de duas horas de Belém e também consideradas rotas do tráfico, em Santa Izabel, a 46 quilômetros a nordeste do Estado, em Santarém, no oeste do Pará, em Altamira, no centro oeste, e Marabá, no sudeste.
Com uma geografia marcada pela tranquilidade de locomoção através dos rios e de estradas com pouca fiscalização, o Estado tem um cenário que facilita a ação de quadrilhas de traficantes, distribuidores e varejistas. É verdade que eles não estão agindo livremente, e que são significativas as prisões e apreensões de cocaína e pasta. Mas se considerarmos, segundo a própria Polícia Civil, que 1 quilo de pedra de óxido de cocaína dissolvida em uma mistura química pode render até 6 quilos de pasta de cocaína, já são muito preocupantes os dados sobre apreensão e consumo. E o pior: a mistura que dissolve a cocaína sólida é uma alquimia perigosa feita de solução de bateria, ácido muriático, barrilha usada para limpeza de piscinas, além de outros produtos químicos que podem ser mortais e são profundamente nocivos à saúde de quem consome a pasta.
O alerta às famílias para evitar que seus filhos consumam essa bomba relógio que é a cocaína nas suas mais variadas formas, as ações para combater a rede do tráfico e as apreensões feitas em 2006, são os assuntos de nossa reportagem, em uma conversa com dois dos delegados responsáveis pela repressão a todas às drogas e outros crimes, mas com abordagem sobre o combate ao tráfico de cocaína. (J. H.)
Belém é rota, mas o tráfico está vigiado, diz superintendente da Polícia Federal
O delegado José Sales, Superintendente da Políica Federal no Pará, afirma que os traficantes pensam de forma prática, econômica e preocupados com a segurança. Mas se enganaram quando pensaram que pelo aeroporto iriam encontrar facilidades. “Deu tudo errado para eles, fizemos quatro apreensões médias seguidas”, comemora sobre as apreensões nesse inicio de ano. Além da cocaína, a PF prendeu 11 pessoas, as chamdas “mulas”, entre elas um adolescente e uma mulher.
Mesmo assim, ele reconhece que Belém continua como uma das rotas mais usadas para a distribuição de cocaína para o nordeste. “Boa parte da cocaína destinada ao consumo nas capitais nordestina tende a passar pelo Pará. Ou desembarcando, fazendo uma conexão, ou diretamente em vôos que passam por Belém e nos quais as pessoas vão direto para São Luiz no Maranhão, Fortaleza no Ceará ou Recife, em Pernambuco. As estatísticas indicam que as ‘mulas’ passam por Belém ou por cidades do interior, como Marabá e Santarém”, diz ele.
Como há muitas alternativas, é possível aos traficantes o uso de diversas rotas e meios, mas o superintendente avisa que não está fácil a eles o uso de rotas alternativas. Mais equipada e atuando de forma integrada com outras superintendências, as estratégias da PF do Pará estão dando certo no combate ao tráfico. De olho nas conexões das quadrilhas presas este ano, a PF continua investigando possíveis conexões entre elas, já que toda a cocaína que chega a Belém vem da Colômbia, mesmo com algumas quadrilhas fazendo refinamento no Suriname.
Com as apreensões, o superintendente afirma que é necessário mais vigilância e trabalho de inteligência. “Estamos mais atentos e precisamos aumentar o contingente em pontos estratégicos”.
Para reforçar a repressão em pontos de venda na cidade, a PF está criando uma parceria para atuar junto com as Polícias Civil e Militar. “A cooperação vai permitir o combate a pontos críticos do tráfico dentro da cidade, que alimenta esses índices alarmantes da violência em Belém, inclusive com a posse ilegal de arma, que tem a ver com o consumo de drogas”. (J. H.)
DRE admite aumento, mas afirma que Belém não é o maior corredor da droga
Para o delegado Ivanildo Pereira dos Santos, titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), vinculada à Divisão de Combate ao Crime Organizado (DRCO), houve aumento de tráfico e na distribuição de pó e pasta de cocaína em Belém. Mas a a cidade não é uma das maiores consumidoras dessas drogas. Ele atribui a fatores sociais, como a falta de emprego e principalmente a migração de criminosos de outras áreas para o tráfico. “Fizemos várias prisões de ex-assaltantes que viraram traficantes”, afirma. Segundo ele, a pasta de cocaína que abastece Belém e os municípios do interior vem normalmente de Tabatinga, pela calha do rio Amazonas, e por estrada, trazida do Acre, Rondônia, passando por Cuiabá, no Mato Grosso, Goiás, até chegar aqui pela Belém-Brasília.
A Polícia Civil já sabe que vários grupos atuando na distribuição de cocaína na grande Belém. O delegado diz que são grupos do Pará, Amazonas, Acre, Rondônia, Bolívia e Colômbia. Quando trazem a cocaína de barco, os traficantes estão usando um desvio por terra e depois voltam novamente ao rio até chegar a Abaetetuba, Barcarena e Belém direto, onde entregam aos distribuidores que levam aos varejistas, para a venda ao usuário.
Ivanildo Pereira garante que a polícia já tem um mapeamento dos locais de venda de pasta e pó de cocaína, e os fornecedores considerados mais conhecidos. Ele também garante que, a Polícia está preparada para intensificar a repressão aos fornecedores. “Oito deles já foram presos, mas é preciso prender o grande traficante antes que ele consiga fazer a distribuição, como tem feito a Polícia Federal. Queremos chegar pelo menos a níveis toleráveis porque o tráfico é o pior tormento para as famílias e a sociedade”, diz ele.
O delegado credita o aumento do consumo à questão social, do ponto de vista moral. Ele critica o excesso de liberdade, a degradação da família e das instituições. Para que melhorasse a prevenção e a repressão, o delegado gostaria que a polícia estivesse mais aparelhada, com maior número de policiais, a justiça decidisse a punição de forma mais rápida, maior participação do Ministério Público nessa questão, para atingir de forma mais contundente o tráfico e o crime em geral.
Além de aumento da proteção social com mais lazer, esporte e cultura para a juventude, ele diz que também são necessários mais centros de recuperação, para tratamento do grande número de dependentes que existe hoje.
Para a DRE, Belém não é a cidade de maior consumo de pasta e nem de pó de cocaína, apesar da popularização e das facilidades para a compra da pasta, que só fez aumentar o trabalho da polícia, segundo o delegado. “Não é uma febre em Belém, é o mesmo nível de consumo ou até mais baixo de que outras capitais”, garante.
O delegado coloca o trabalho educativo da DRE à disposição de escolas e instituições, para palestras educativas de como evitar, proteger e detectar o envolvimento dos filhos com as drogas.
A DRE também coloca o Disque Denúncia (anônima) à disposição da população. O número é 3233-3309. E os telefones para falar com a DRE são 4006-8134 e 9943-0352. (J. H.)