Vôo cego no Pacífico
Enviado: Dom Ago 21, 2005 22:13
Meus prezados:
A falta de um turnaround ou walkaround causou este acidente fatal.
Vôo cego sobre o Pacífico
O co-piloto estava no comando. Experiente, colocou o Boeing 757-200 na cabeceira da pista à 0h41min de 2 de outubro de 1996. Era uma noite fria e com muitas nuvens em Lima, Peru. A sua direita, o comandante esbanjava bom humor:
- Vamos decolar aos 41 (minutos). Nem suíços são tão precisos.
O vôo 603 da Aeroperu levaria 64 passageiros e seis tripulantes a Santiago, no Chile. Quatorze segundos depois de decolar, o co-piloto notou o primeiro problema:
- Os altímetros (aparelhos que registram a altitude) estão travados.
O comandante parecia tranqüilo.
- Isso é novidade, hein? Mantenha a velocidade - aconselhou.
Os dois ainda não sabiam, mas o indicador de velocidade também estava com problemas.
- Mantenha a velocidade - repetiu o comandante.
- Estou mantendo - respondeu o co-piloto.
- Estamos descendo. Suba! - ordenou o comandante, mais aflito.
A dupla estava confusa. O avião parecia subir e ganhar velocidade, mas os instrumentos indicavam o contrário:
- Suba! Você está descendo, David.
- Não, estou subindo.
As nuvens impediam referências visuais. O Boeing viajava em um vôo cego. Dois minutos após a decolagem, o co-piloto entrou em contato com a torre:
- Lima, declaramos emergência. Não temos altímetros nem velocímetros.
- Entendido. Altitude? - perguntou o controlador em solo.
- Não temos.
Só então a dupla se lembrou que o avião havia sido revisado naquele mesmo dia, mais cedo.
- Esses f.d.p da manutenção mexeram em tudo - esbravejou o co-piloto.
- Que m... eles fizeram aqui - concordou o comandante.
Eles nunca viriam a saber, mas a causa de toda a confusão eram meras fitas adesivas coladas sobre os sensores externos do avião, que normalmente abastecem os instrumentos de bordo com as informações sobre o desempenho do vôo. Ao limpar a fuselagem do Boeing, a equipe de manutenção colou as fitas para proteger os sensores e simplesmente esqueceu de tirá-las ao terminar o serviço. Na cabine, começaram os primeiros desentendimentos. O co-piloto pediu à torre instruções para o pouso, mas foi repreendido pelo comandante, que assumiu o controle:
- Vamos estabilizar primeiro.
Enquanto o co-piloto lia o manual de emergência, o comandante tentava decifrar o problema:
- O velocímetro indica velocidade zero, mas continuamos voando. Como é possível?
À 0h53min, o comandante decidiu pousar. Mas a confusão só piorava na cabine. Antes travados, os velocímetros indicavam agora velocidade acima do normal.
- Reduzimos a potência dos motores, mas a velocidade continua subindo - disse o co-piloto.
À 0h59min, a caixa-preta captou o alarme de excesso de velocidade, que continuaria soando até o fim da gravação. O co-piloto pediu ajuda:
- Lima, Aeroperu 603. Estamos com excesso de velocidade. Algum avião poderia sair para nos ajudar? Algum avião que possa nos servir de guia, algum Aeroperu que esteja na área, alguém?
O comandante não gostou e deu início a uma discussão:
- Não diga isso à torre.
- Digo, sim. Estamos caindo.
- Não estamos caindo. É tudo fictício.
- Como não estamos caindo? Claro que estamos caindo.
Foram interrompidos pelo controle aéreo:
- Um Boeing 707 estará pronto em 15 minutos para ajudá-los.
Terminada a mensagem, outro alarme soou na cabine, indicando que o avião voava próximo demais do chão. O co-piloto ficou aflito:
- Lima, temos um alerta de proximidade do solo.
- Afirmativo. Mas o radar indica que vocês estão a 10 mil pés (mais de 3 mil metros) sobre o mar.
Nem o comandante nem o co-piloto sabiam o que fazer, mas pareciam concordar que não voavam tão alto assim. À 1h10min, o vôo 603 entrou em seus instantes finais. O Boeing 757 voava a poucos metros sobre o Oceano Pacífico, ao contrário do que dizia o controle aéreo (que recebia informações do sistema de bordo da própria aeronave). O co-piloto ainda tentou mais um contato com a torre:
- Lima, qual é nossa altitude?
- Estão a 9,7 mil pés.
Segundos depois, desconfiado da informação, o co-piloto indagou:
- Baixamos o trem de pouso?
- E vamos fazer o que com o trem de pouso? - respondeu o comandante, no momento em que os microfones captaram um impacto.
O pesado Boeing começava a se despedaçar nas geladas águas do Pacífico. Em instantes, todos seus ocupantes estariam mortos. Mas depois do primeiro impacto, com a ponta da asa esquerda, restariam ainda alguns segundos de gravação dentro da cabine:
Co-piloto - Lima! Estamos batendo na água! (Dirigindo-se ao comandante) Sobe! Sobe!
Controle de Lima - Sobe, sobe, Aeroperu 603!
Comandante - Está comigo! Está comigo! Vai cair.
O co-piloto informa que estão sem altímetros e velocímetros e a torre pergunta: Altitude?... É de doer...
Creio que, aqui no Brasil, o CINDACTA da aérea estaria com seu próprio sistema de radares, detectando e monitorando a aeronave.
Um abraço e até mais...
Cláudio Severino da Silva
jambock@brturbo.com.br
A falta de um turnaround ou walkaround causou este acidente fatal.
Vôo cego sobre o Pacífico
O co-piloto estava no comando. Experiente, colocou o Boeing 757-200 na cabeceira da pista à 0h41min de 2 de outubro de 1996. Era uma noite fria e com muitas nuvens em Lima, Peru. A sua direita, o comandante esbanjava bom humor:
- Vamos decolar aos 41 (minutos). Nem suíços são tão precisos.
O vôo 603 da Aeroperu levaria 64 passageiros e seis tripulantes a Santiago, no Chile. Quatorze segundos depois de decolar, o co-piloto notou o primeiro problema:
- Os altímetros (aparelhos que registram a altitude) estão travados.
O comandante parecia tranqüilo.
- Isso é novidade, hein? Mantenha a velocidade - aconselhou.
Os dois ainda não sabiam, mas o indicador de velocidade também estava com problemas.
- Mantenha a velocidade - repetiu o comandante.
- Estou mantendo - respondeu o co-piloto.
- Estamos descendo. Suba! - ordenou o comandante, mais aflito.
A dupla estava confusa. O avião parecia subir e ganhar velocidade, mas os instrumentos indicavam o contrário:
- Suba! Você está descendo, David.
- Não, estou subindo.
As nuvens impediam referências visuais. O Boeing viajava em um vôo cego. Dois minutos após a decolagem, o co-piloto entrou em contato com a torre:
- Lima, declaramos emergência. Não temos altímetros nem velocímetros.
- Entendido. Altitude? - perguntou o controlador em solo.
- Não temos.
Só então a dupla se lembrou que o avião havia sido revisado naquele mesmo dia, mais cedo.
- Esses f.d.p da manutenção mexeram em tudo - esbravejou o co-piloto.
- Que m... eles fizeram aqui - concordou o comandante.
Eles nunca viriam a saber, mas a causa de toda a confusão eram meras fitas adesivas coladas sobre os sensores externos do avião, que normalmente abastecem os instrumentos de bordo com as informações sobre o desempenho do vôo. Ao limpar a fuselagem do Boeing, a equipe de manutenção colou as fitas para proteger os sensores e simplesmente esqueceu de tirá-las ao terminar o serviço. Na cabine, começaram os primeiros desentendimentos. O co-piloto pediu à torre instruções para o pouso, mas foi repreendido pelo comandante, que assumiu o controle:
- Vamos estabilizar primeiro.
Enquanto o co-piloto lia o manual de emergência, o comandante tentava decifrar o problema:
- O velocímetro indica velocidade zero, mas continuamos voando. Como é possível?
À 0h53min, o comandante decidiu pousar. Mas a confusão só piorava na cabine. Antes travados, os velocímetros indicavam agora velocidade acima do normal.
- Reduzimos a potência dos motores, mas a velocidade continua subindo - disse o co-piloto.
À 0h59min, a caixa-preta captou o alarme de excesso de velocidade, que continuaria soando até o fim da gravação. O co-piloto pediu ajuda:
- Lima, Aeroperu 603. Estamos com excesso de velocidade. Algum avião poderia sair para nos ajudar? Algum avião que possa nos servir de guia, algum Aeroperu que esteja na área, alguém?
O comandante não gostou e deu início a uma discussão:
- Não diga isso à torre.
- Digo, sim. Estamos caindo.
- Não estamos caindo. É tudo fictício.
- Como não estamos caindo? Claro que estamos caindo.
Foram interrompidos pelo controle aéreo:
- Um Boeing 707 estará pronto em 15 minutos para ajudá-los.
Terminada a mensagem, outro alarme soou na cabine, indicando que o avião voava próximo demais do chão. O co-piloto ficou aflito:
- Lima, temos um alerta de proximidade do solo.
- Afirmativo. Mas o radar indica que vocês estão a 10 mil pés (mais de 3 mil metros) sobre o mar.
Nem o comandante nem o co-piloto sabiam o que fazer, mas pareciam concordar que não voavam tão alto assim. À 1h10min, o vôo 603 entrou em seus instantes finais. O Boeing 757 voava a poucos metros sobre o Oceano Pacífico, ao contrário do que dizia o controle aéreo (que recebia informações do sistema de bordo da própria aeronave). O co-piloto ainda tentou mais um contato com a torre:
- Lima, qual é nossa altitude?
- Estão a 9,7 mil pés.
Segundos depois, desconfiado da informação, o co-piloto indagou:
- Baixamos o trem de pouso?
- E vamos fazer o que com o trem de pouso? - respondeu o comandante, no momento em que os microfones captaram um impacto.
O pesado Boeing começava a se despedaçar nas geladas águas do Pacífico. Em instantes, todos seus ocupantes estariam mortos. Mas depois do primeiro impacto, com a ponta da asa esquerda, restariam ainda alguns segundos de gravação dentro da cabine:
Co-piloto - Lima! Estamos batendo na água! (Dirigindo-se ao comandante) Sobe! Sobe!
Controle de Lima - Sobe, sobe, Aeroperu 603!
Comandante - Está comigo! Está comigo! Vai cair.
O co-piloto informa que estão sem altímetros e velocímetros e a torre pergunta: Altitude?... É de doer...
Creio que, aqui no Brasil, o CINDACTA da aérea estaria com seu próprio sistema de radares, detectando e monitorando a aeronave.
Um abraço e até mais...
Cláudio Severino da Silva
jambock@brturbo.com.br